segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Você sabe o que é distimia?


Você conhece alguém meio mal humorado, pessimista, que vive se queixando de estar cansado? Sempre sem muita disposição, ele parece que tem pouca energia. Fala que é daqueles que teve o azar de ter problemas com o sono! Dorme mal, vive reclamando da vida! Outras vezes cochila pelos cantos, durante o filme, no meio das conversas. Parece sempre meio desinteressado. Alguns dizem que ele tem o "gênio difícil" e que é difícil de conviver.
Se você conhece alguém com as características acima saiba que ele pode ser um portador de Distimia e que no Brasil, existem 5 a 11 milhões de pessoas que sofrem desse mal! Eles são 3 a 6% por cento da população no mundial! De cada 100 pacientes atendidos nos postos de saúde, 7 provavelmente têm Distimia.
Entre os pacientes que possuem algum transtorno mental, mais ou menos um terço deles (36% aproximadamente), apresentam sintomas depressivos leves e de longa duração. Essas pessoas podem ter Distimia. Esses números, que parecem tão altos, ocorrem porque é muito comum uma pessoa que tem um transtorno mental, como pânico, uma fobia ou obsessões, desenvolver sintomas depressivos. É o que os psiquiatras chamam de "comorbidade", quando dois ou mais quadros psiquiátricos se associam num mesmo indivíduo. 
A Distimia é um tipo de depressão que faz parte do grupo dos transtornos mentais que interferem com o humor das pessoas e por isso os psiquiatras chamam esses quadros de "Transtornos do Humor". Ela é diferente dos outros tipos de depressão porque seus sintomas são mais leves, mas têm uma longa duração. Isso torna difícil que o paciente se perceba deprimido, fazendo com que ele conviva com essa depressão, tentando se sobrepor, lutar contra ela. É por isso que é tão prejudicial, pois essa situação acaba por trazer inúmeras consequências para seus portadores. No entanto, existem estudos internacionais que mostram que ela é subdiagnosticada pelos médicos, sejam eles clínicos ou especialistas.
As pessoas com Distimia apresentam altas taxas de absenteísmo: faltas no trabalho. Essas taxas são quase tão altas quanto às faltas devidas às cardiopatias crônicas, e estão entre as primeiras causas de absenteísmo no mundo! 
Essas pessoas quase não conseguem sentir prazer nas coisas que normalmente as interessava, e por isto têm pouquíssimos interesses. São pessimistas. Muitas vezes têm dificuldades com o sono, ou com apetite. É como se um vazio se esparramasse em toda à sua volta, e às vezes houvesse dentro deles uma espécie de buraco que não conseguem preencher com nada. Às vezes, por isso, desenvolvem uma obesidade da qual não conseguem se livrar. 
Como é que podemos então falar de menor gravidade, se tantas são as consequências para aqueles que sofrem de depressão? A menor gravidade dos sintomas justifica então menos preocupação com essas pessoas?
Apesar dos sintomas menos acentuados, a Distimia é um transtorno que acarreta um prejuízo pessoal muito importante. Não só do ponto de vista das relações pessoais, mas no plano econômico também! Em geral, essas pessoas têm poucas relações, poucas amizades, e concentram suas atividades quase que exclusivamente no trabalho, seja ele um emprego formal ou não. Isso porque, é na situação de trabalho que as funções e a forma do indivíduo se comportar são mais bem definidos, facilitando sua atuação. Apesar de toda essa "dedicação", seu desempenho profissional é, em geral, mediano, e muitas vezes insatisfatório para o próprio indivíduo, pois carrega consigo um peso, uma falta de vitalidade, de criatividade e de dinamismo que o prejudica em todos os lados.
É muito comum ouvirmos o paciente contar que faz as coisas com dificuldade, como se estivesse pesado, lento, sem prazer, fazendo o mínimo, só o essencial a cada dia.
Isso tudo faz com que o indivíduo não procure ajuda. Ele não vai ao médico, e quando o faz, raramente procura um psiquiatra. Na maioria das vezes ele vai a um clínico com queixas como falta de apetite, insônia ou cansaço. 
O clínico, pouco treinado no diagnóstico de transtornos mentais, não reconhece a depressão e vai investigar as queixas físicas, com as quais tem mais familiaridade. Muitas vezes vão prescrever vitaminas, indutores do sono, tentando tratar cada queixa isoladamente. Noutros casos, ele consegue reconhecer que o quadro é de depressão, mas seu conhecimento sobre o tratamento dos quadros depressivos é limitado e ele não consegue ministrá-lo corretamente. Isso pode ocorrer porque a dose do medicamento é insuficiente, ou porque o antidepressivo escolhido não tem a eficácia necessária, ou mesmo porque a duração do tratamento é limitada, etc. Assim, o paciente que, com muita resistência, procurou ajuda médica, perde a oportunidade de tratar-se e vai carregar seu sofrimento por outro longo período, até que faça (e se fizer...) uma nova tentativa.
Observando esse tipo de situação, levantamos formalmente a hipótese de que mesmo os psiquiatras poderiam não fazer o diagnóstico da Distimia. Elaboramos um projeto de pesquisa de mestrado, onde checamos o diagnóstico dado por psiquiatras de um hospital universitário. Depois, comparamos esse diagnóstico com o nosso diagnóstico que foi feito usando uma entrevista padronizada que dá uma margem de acerto do diagnóstico de Distimia muito boa. Observamos nesse grupo de 80 pacientes que quase um terço deles (27%) apresentava sintomas compatíveis com o diagnóstico de Distimia. Dos 22 pacientes com Distimia, somente oito (36%) foram diagnosticados como distímicos pelo psiquiatra que os acompanhava, o que confirmou nossa hipótese inicial.
A maioria das pessoas com Distimia tinha também outros transtornos mentais associados, numa proporção bem maior do que os pacientes que não apresentavam Distimia! Esses quadros associados eram principalmente de Depressão Maior, um tipo de depressão muito intensa e aguda. Também encontramos muitos pacientes com dependência de "calmantes" ou "remédios para dormir", os benzodiazepínicos, e outros com quadros de ansiedade como pânico ou fobias. 
Esse trabalho foi feito durante o ano de 1998, no Ambulatório de Saúde Mental da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo. Conseguimos auxílio financeiro da FAPESP que é um órgão do governo do Estado que exige um altíssimo nível de seriedade e competência de seus colaboradores. 
Apresentamos nossos resultados no Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP como tese de mestrado em dezembro de 1999. Em colaboração com o professor Hélio Elkis, transformamos nosso trabalho num artigo científico que foi aceito para publicação num dos principais jornais científicos na área dos transtornos do humor, o "Journal of Affective Disorders".
Nada justifica que, hoje em dia, com a quantidade de novos recursos disponíveis para o tratamento da depressão, que o indivíduo continue carregando esse quadro por tantos anos e de forma tão prejudicial. A própria OMS (Organização Mundial de Saúde) tem um programa internacional para treinamento de clínicos no diagnóstico da depressão. O objetivo do nosso trabalho foi o de chamar a atenção dos colegas médicos e psiquiatras para essa situação e, esperamos que com isso tenhamos dado nossa colaboração aos portadores de Distimia, para seu reconhecimento mais rápido e melhor qualidade em seu tratamento.

Fonte: ABRATA